No outro dia vi um filme, por acaso passei por ele na televisão. Chamava-se, em português, Quase Famosos. Era a história de um miúdo, muito pouco cool, que decide seguir em digressão com uma banda rock, a fim de fazer uma entrevista para uma revista de música.
Foi engraçado, o momento em que vi este filme. Um domingo, depois de uma daquelas noites de sábado que acabam repetidamente iguais. Uma roda viciada que nunca leva a lado nenhum. Foi isto que fiz da minha vida, desde o dia 5 de Janeiro de 2oo9.
A história do sonho do rapaz que não queria ser advogado, como o falecido pai tinha escolhido para ele, pouco me disse. Um adolescente normal que tem a sorte ou a desventura de ganhar os discos de rock da irmã mais velha, quando esta sai de casa para ser hospedeira. Um miudo mimado e super-protegido pela mãe, que já só o tem a ele, agredido psicologicamente pelos colegas de escola.
É uma história de gente normal, dos sentimentos de gente normal.
Foram os normais sentimentos das pessoas que queriam ser algo extraordinário, que me foi prendendo ao filme. Todos nós queremos ser grandes, reconhecidos, ter gente que nos adora, venera, elogia. Todos queremos um motivo para alimentarmos o ego. Grandemente.
O mundo do rock cria uma roda, tal qual o mundo da droga... Rock não rima só com droga, É uma droga. O filme retrata um mundo sujo, viciado, cheio de jogos perigosos.
Uma groupi, lindissima e, dizia-se, 'reformada', cruza-se com o pequeno reporter e acaba por ir com a banda em digressão. Já os conhecia, era apaixonada pelo guitarrista da banda. Acompanhara-os não raras vezes estrada fora, fazendo companhia em demasiadas ocasiões. Ele sente-se atraído por ela, ela ama-o. Ele tem uma manorada com quem já foi casado, ela espera por ele incondicionalmente, por muitas bandas que acompanhe. De muito perto!...
Ela finge que não o ama, que é só pelo prazer da música, o espírito groupi! Ele diz-lhe coisas românticas, quando estão sós.
Ela finge não o amar. Ele finge que a ama.
...
Esconde-se atrás de uma capa de sensualidade, de divertimento constante. O lema dela é, disse-o, nunca se envolver, para se divertir sempre.
Foi vendida a outra banda por uns trocos e uma grade de cerveja. O 'reporter' disse-lhe, quando ela lhe pedia ajuda para ir ter com o guitarrista a um sítio qualquer onde ele não queria que ela estivesse, onde não era suposto ela estar.
Estava completamente cega, nunca conseguiria ver, sozinha, que era apenas um objecto, um divertimento, que a pessoa que amava era quem a pior a tratava. Justamente por a tratar bem.
Ele gostava do que ela lhe provocava, mas não a amava. Tinha pena dela, mas não a respeitava.
No final, a rapariga quase morre em coma alcoolico. O reporter salva-a. O guitarrista seguiu com a sua banda, outras groupis vieram...
O sonho de Penny Lane, a groupi que quase destruiu a sua vida à conta de um mundo irreal, um mundo apenas sonhado, um mundo onde nem o seu verdadeiro nome se atrevia a dizer (chamava-se Laddy!).
Quase destruiu a sua vida por uma ilusão.
Acordou. Ergueu-se. Descansou. Pôs-se bonita. Foi para Marrocos.
...ao ver a triste história desta fortíssima Penny...olhei-me a mim própria, escrava de um sonho que pus na cabeça. Apaixonada por alguém que não me respeita o suficiente para sequer me admitir. Alguém que diz que me ama, mas faz muito pouco que possa querer dizer isso. Alguém que diz que fugia comigo, que tinha filhos comigo, mas que não se quer prender, está habituado a estar livre, a fazer o que quer, quando quer, com quem quer.
Também eu sou amante, como era a Penny, a diferença é que do lado de lá não há uma manorada, há uma por fim de semana, ou mais que uma... E eu continuo a correr, por e atrás dele. A achar sempre que um dia tudo vai mudar, que as coisas vão ser como sonho...
Como sonhei.
Fazer tudo a pensar nele. Vestir uma roupa, ir a um sítio, fazer uma refeição... Ver um filme. Tudo gira em torno da mesma coisa, um ciclo vicioso que me destrói por dentro, que me deixa com menos auto-estima, que me perturba e impede de ser competente, porque estou demasiado frágil, com demasiado medo. Porque perdi o respeito por mim. Porque me deixei viciar nesta droga...
Eu também ia para Marrocos!...
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